domingo, 20 de abril de 2008

Nut


Além da minha sombra, projetada até perder-se nas árvores, estendia-se o tapete da noite. O manto da pantera cobria o céu em um profundo azul veludo. A madrugada era fria e a hora da malvadeza da lua passara, deixando sinais de orvalho e prata no mais absoluto silêncio. Dona da Terra, andava tomando o mundo.
Eu era criança. Lembro do maciço das frias barras de aço tocando o nariz - devo ter chegado muito perto. Apenas um estreito fio de limo dourado nos separava, eu conseguia me debruçar. Retornei várias vezes, hipnotizada pelas pegadas fotografadas na retina. Não sentia medo, é desnecessário acovardar-se frente a uma rainha.
Quando não ia vê-la, Nut sempre dava um jeito de aparecer. Quimera, surgia em papel-origami ou ainda negra e metálica, habitando grandes casas de vidro. Ignorava solenemente as correntes que se arrastavam pelo chão, brilhando à luz difusa do sol. Rugia, e todos os vidros vibravam.
Então, eu paraliso. Ela se aproxima quente e lança em minha anca uma cabeçada amigável, enquanto meu coração pensa em sair pela boca. Respiro fundo e fecho os olhos. Ela rosna ao meu redor, desequilibrado-me com seus carinhos felinos. Sinto seus dentes no dorso da mão e estremeço. Morde minha mão esquerda e inocula seu veneno suave. Mergulha sob a pele e caminha nas veias num sussurro rouco, elétrico. Agora é pequena, pequenina. Sinto seus movimentos no sangue, o sinuoso deslocamento. Nut passeia dentro de mim. A cabeça rompe a casca oleosa. Acaricio seu pêlo úmido como quem toca um simulacro do manto celeste e sente choques na ponta do dedo quando passa por uma estrela.
Às vezes, vem rasgando. É maior do que a minha alma e se projeta com violência na parede, exigindo comida. Está nervosa. Ameaça-me com o pó negro da morte, abisma precipícios, ruge assombrosamente. Se não há alimento, eletrifica o sangue em feixes de dores moventes e lágrimas doces. Dócil, danço para a Deusa, como faziam as sacerdotisas de lua e plutão.
Se desaparece por muito tempo, fico atenta. Ou está muito perto, ou está muito longe. Quando sinto saudades, deito fumaça no espelho de obsidiana e estendo a pele de lebre branca aos seus pés. Deposito em transe suas relíquias e me demoro em pensar-lhe o rastro.
Numa noite de chuva, Nut voltou. Deitou-se ao meu lado, cansada. Contou-me de suas andanças pelo mundo, de suas caçadas. Queria alento e companhia. Perguntei-lhe sobre seu coração e ela rosnou sonolenta, aninhando-se em meu colo. Senti seus batimentos, o peso da pata sobre o ombro, as vibrissas elétricas tocando meu rosto. Acariciei seus flancos intumescidos e observei minha pantera dormindo. Seu perfume era doce, algo tinha mudado. Toquei-lhe então a barriga e senti os movimentos prenhes de filhotes. Entorpecida, calei meus pensamentos. E os vi habitando meu quarto, derrubando o vaso de rosas, a cortina azul arranhada.
Naquela manhã, Nut não estava mais. Nut nunca mais voltou. Por algum motivo que desconheço, sua lembrança não me desola. Reconheço seu perfume quando meu corpo vibra, reconheço suas patas ao correr apressada, reconheço seus dentes e suas cicatrizes. Farejo vítimas com facilidade. Se me aborreço, ela salta-me aos olhos agita meus músculos, estica a espinha dorsal e curva-se, pronta para ataque. Então, volto a dançar.


Zoe de Camaris
* Para o fruto que Nut não vingou *

**Muiito bom!**

Beijo!_0/



Um comentário:

Augusto disse...

Aê renataaa
filosofando